"A atual crise de financiamento humanitário, agravada pela redução das despesas de saúde nos países de acolhimento, está a afetar o âmbito e a qualidade dos programas de saúde pública e de nutrição para os refugiados e comunidades de acolhimento", afirmou o líder do programa de Saúde Pública do ACNUR, Allen Maina, numa conferência de imprensa hoje realizada em Genebra, Suíça.

Os cortes estão a "interromper o acesso a serviços essenciais e aumentam o risco de surtos de doenças, subnutrição, condições crónicas não tratadas e problemas de saúde mental", avisou o responsável, lembrando que a redução do financiamento de ajuda afeta também os sistemas de abastecimento de água, as instalações de saneamento e a gestão de resíduos.

"Os surtos de doenças infecciosas como a cólera, a disenteria, a hepatite e a malária podem ameaçar grandes populações, com consequências mortais", disse, acrescentando que "a redução do financiamento pode inverter significativamente o progresso nas respostas ao Vírus da imunodeficiência humana (VIH) em cenários humanitários".

Na mesma conferência de imprensa, Allen Maina avançou com alguns exemplos do impacto dos cortes de financiamento na saúde, afirmando que no Bangladesh cerca de um milhão de refugiados rohingya enfrentam uma grave crise de saúde devido ao congelamento do financiamento, com mais de 40.000 mulheres grávidas em risco de perderem acesso a cuidados pré-natais, 19.000 crianças gravemente subnutridas a poderem perder tratamentos para lhes salvar a vida e 10.000 refugiados que sofrem de condições de risco de vida a poderem ficar sem cuidados de saúde.

No Burundi, adiantou o responsável do ACNUR, milhares de crianças refugiadas com menos de cinco anos podem não receber tratamento adequado para a subnutrição e 10.000 mulheres refugiadas grávidas podem perder o acesso a cuidados pré-natais.

"As unidades de saúde locais, que já operam para além da sua capacidade, estão a preparar-se para um novo aumento do número de doentes e surtos de doenças transmissíveis, como a cólera, principalmente na província de Cibitoke, que recebe chegadas da República Democrática do Congo", destacou.

Os riscos afetam ainda a República Democrática do Congo, onde "o sistema de saúde está à beira do colapso", lembrou Allen Maina.

Segundo referiu, "o orçamento da saúde do ACNUR para 2025 foi cortado em 87% em relação a 2024, desencadeando consequências graves e imediatas", estando as unidades de saúde sobrecarregadas, os medicamentos essenciais a esgotar-se.

Neste país em concreto, o corte no fornecimento de água já levou a casos de cólera, que podem facilmente tornar-se surtos.

"Prevê-se que as consequências para a saúde dos cortes no financiamento sejam devastadoras, colocando mais de 520.000 refugiados em risco elevado de doenças infecciosas e de morte", sublinhou.

Outro exemplo dado foi o do Egito, onde os tratamentos médicos de refugiados foram suspensos, com exceção dos de emergência.

"As suspensões incluem cirurgias planeadas, tratamento para condições graves e medicamentos para doenças crónicas, como a diabetes e a hipertensão, que, se não forem tratadas, podem levar a consequências terríveis. Pelo menos 20.000 doentes serão afetados, incluindo muitos refugiados que fugiram da guerra no Sudão", adiantou Allen Maina.

Na região de Gambella, na Etiópia, "os cortes no financiamento impactaram severamente os serviços de nutrição, levando ao encerramento das operações em quatro dos sete locais de refugiados em fevereiro", enquanto na Jordânia 43.000 refugiados correm o risco de perder o acesso a cuidados de saúde primários.

Em Moçambique, nomeadamente no campo de Maratane -- que acolhe 8.000 refugiados e requerentes de asilo -- a ajuda diminuiu para metade, obrigando a "cortes significativos nos serviços de saúde mental e de apoio psicossocial e nos alimentos suplementares para melhorar a nutrição de 300 pessoas", descreveu o responsável do ACNUR.

Segundo disse, a estimativa de que 12,8 milhões de pessoas deslocadas poderão ficar sem apoio de saúde em 2025 baseou-se num inquérito realizado pela equipa de saúde do ACNUR em todas as operações globais onde a agência tem programas de saúde.

"Cada dia a mais em que esta incerteza financeira continue a existir, aumentará o impacto nas vidas de milhões de homens, mulheres e crianças em todo o mundo que fugiram das suas casas", concluiu Allen Maina.

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