Foi um ano difícil para Dalila Rodrigues: no núcleo duro do Governo há quem há meses admita ter sido a escolha mais infeliz de Luís Montenegro, com a sua recusa em sair do Palácio da Ajuda para o novo centro do Governo, no edifício da CGD, a deixar má memória (a ministra ainda vai duas vezes por semana ao antigo sítio do Ministério). Mas ao fim de um ano, Dalila deu a sua primeira entrevista a um jornal e garante querer continuar no Executivo, caso a AD volte a vencer as legislativas: “Sim, estou muito motivada para cumprir o meu mandato”, diz ao Jornal de Notícias, na edição deste sábado. Facto: dos ministros de Montenegro, a responsável da Cultura é uma das raras que não segue nas listas – 11 dos seus colegas são mesmo cabeças de lista.

Mas Dalila Rodrigues segue motivada: “As minhas políticas culturais são de caráter estruturante e quanto mais eu realizar, quanto mais ação desenvolver, mais trabalho deixo feito e, portanto, mais significativo será o meu legado”, garante.

Na mesma entrevista, a ministra admite não ter escolhido o seu novo secretário de Estado, que entrou em janeiro, pouco antes de ter rebentado a crise política. Questionada sobre as razões que a levaram a substituir uma mulher por um homem nesse cargo, Dalila Rodrigues dá uma resposta surpreendente: “Não fui eu que nomeei a secretária de Estado. É o senhor primeiro-ministro que nomeia. Lamento bem dizer isto, não quero deixar o senhor primeiro-ministro numa situação de desconforto, mas não me podem imputar responsabilidades porque, na verdade, não tenho o poder de nomear um secretário de Estado”. Quando os jornalistas insistem, a ministra cita o seu secretário de Estado: “Como ele próprio diz, a política é um carrossel”.

De resto, a saída da sua secretária de Estado é um dos temas da entrevista. Dalila Rodrigues admite que a saída foi pedida pela própria, alegando que já tinha “cumprido o seu objetivo” – alegadamente o de repor o PRR da Cultura em plena execução. “A secretária de Estado pediu-me para comunicar ao sr. primeiro-ministro que gostaria de voltar à vida académica.”

Quanto ao setor, jura só ter feito “duas exonerações”, uma na presidência do novo organismo do Património, outra na polémica do CCB: o objetivo aí, diz a ministra, “era devolver ao país um equipamento de âmbito nacional e internacional: o Centro Cultural de Belém não é de Lisboa, nem de clientelas que têm acesso ao financiamento”.

Essa substituição foi uma das polémicas do mandato. Dalila Rodrigues foi acusada pelo antecessor de perseguição política e de nada ter feito pela Cultura. A ministra responde assim: “O ex-ministro da Cultura diz que foi um ano perdido e eu vou dizer que herdei muitos atrasos e problemas.”

Na hora do fim de mandato, Dalila Rodrigues deixa uma garantia: “No dia em que sair, em que encerrar as minhas funções, saio com a minha consciência absolutamente tranquila. Sei não ter prejudicado uma única estrutura com a minha passagem pelo Ministério da Cultura. O país antes das clientelas.”