
“O que julgo saber é que esse local ficou em oitavo entre oito opções. Se houvesse 15 opções, teria ficado em 15.º”.
As palavras são de Anthony Albanese, primeiro-ministro australiano. Albanese falava sobre a hipótese de, nos Jogos Olímpicos de Brisbane, em 2032, as provas de remo e de canoagem se realizarem no Rio Fitzroy, onde habitam mais de 3 mil crocodilos. Quando o político fez tais comentários, a casa dos répteis ser cenário olímpico era apenas uma possibilidade avançada pela imprensa, a qual, atendendo às palavras do primeiro-ministro, não era muito real.
“É um grande rio, mas para caminhar na margem. Não tenho grandes certezas quanto a acolher o remo lá, mas devo dizer que recordes do mundo certamente seriam batidos, porque eles vão querer andar muito rápido”, brincou Albanese. Mas a hipótese que foi motivo de piadas é, na verdade, uma intenção firme dos organizadores.
Os responsáveis por Brisbane 2032 anunciaram os planos para as infra-estruturas das competições. Neles consta, de facto, o Rio Fitzroy, 650 quilómetros a norte de Brisbane, como palco para o remo e a canoagem.
Questionado sobre a viabilidade de remar e pagaiar em águas ondem vivem crocodilos, Andrew Liveris, presidente do comité organizador, deu uma resposta contundente: “Há tubarões no oceano e continuamos a surfar”, atirou Liveris, que desvalorizou a questão dizendo que “é um pouco hollywoodesco” pensar em “criaturas subaquáticas”. “Deixamos isso para Los Angeles”, atirou, numa referência ao anfitrião dos Jogos de 2028, que precedem os de Brisbane.
Em fevereiro, numa comissão de inquérito parlamentar sobre possíveis locais para receber os Jogos, a presidente do clube de remo de Fitzroy explicou que há “protocolos em vigor” para o caso de haver avistamentos de crocodilos por parte de quem está em embarcações. “O rio é um habitat de crocodilos, temos plena consciência disso, mas algumas notícias têm sido manifestamente sensacionalistas. É um risco que sabemos gerir”, assegurou Sarah Black.
Apesar da confiança dos organizadores, a presidente da federação de remo da Austrália, Sarah Cook, já manifestou preocupações relativamente ao local, assumindo que tanto a federação internacional da modalidade como Comité Olímpico Internacional podem vetar o Rio Fitzroy.
Uma preparação caótica
Brisbane foi eleita como anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2032 a 21 de julho de 2021. Será a terceira vez que o maior evento desportivo se realizará na Austrália, depois de Melbourne 1956 e de Sydney 2000.
No entanto, toda a organização tem estado envolta em controvérsia, atrasos e polémicas. Quase quatro anos depois da atribuição, só agora foram anunciados os planos para as infra-estruturas. Parte da causa dos atrasos está na instabilidade política, com David Crisafulli a ser o terceiro primeiro-ministro da região de Queensland nos últimos quatro anos.
Num anúncio bastante criticado, Crisafulli revelou o plano para os locais que irão acolher os Jogos. Está previsto gastar mais de €2 mil milhões em obras, as quais incluem a construção de um novo estádio olímpico, com capacidade para 60 mil pessoas.
O responsável pelo estado cuja capital é Brisbane quebrou uma promessa eleitoral, já que dissera que não iria construir um estádio olímpico, mas sim acolher o atletismo num recinto temporário. Crisafulli pediu desculpa por não ter cumprido a sua palavra, dizendo que não erguer um estádio seria “a decisão politicamente mais fácil”, mas não “a opção certa”.
Além deste estádio olímpico, será construído num novo centro aquático, com capacidade para 25 mil espectadores. Crisafulli prometeu que tratar-se-á do “melhor centro aquático do planeta”.
As cerimónias de apresentação do plano de infra-estruturas para Brisbane 2032 ficaram marcadas por muitos protestos, criticando-se os gastos de construção ou o facto de estarem previstas construções para espaços que constituem áreas protegidas de indígenas australianos. Crisafulli respondeu à contestação afirmando que “chegou o momento de andar para a frente e construir.”