

O jovem tenista checo Jakub Mensik escreveu um dos capítulos dourados da história recente do ténis masculino.
O adolescente de 19 anos conseguiu a proeza de derrotar o campeoníssimo sérvio Novak Djokovic, numa final épica decidida em dois tie breaks, na qual Mensik levou a melhor sobre o seu grande ídolo e o jogador de quem disse ser a razão pela qual começou a jogar ténis.
Mensik não teve um percurso nada fácil para poder disputar o primeiro título da sua curta carreira.
Teve que derrotar um jogador que vinha em estado de graça depois de ganhar o seu primeiro grande torneio em Indian Wells (o britânico Jack Draper) e logo na segunda ronda deste torneio conseguiu o feito de o derrotar.
Para chegar a esta final teve de ganhar ao seu sempre sólido e muito consistente Taylor Fritz, numa meia-final com uma duração de quase três horas, na qual Mensik mostrou novamente nervos de aço (tendo todo um Hard Rock Stadium contra si) para levar de vencida o tenista da casa Fritz num disputadíssimo tie break de 3o set.
Um momento absolutamente inesquecível na carreira deste jovem muito talentoso, e que conseguiu a façanha de derrotar três jogadores do top 10 (Jack Draper, recém-vencedor no Masters 1000 de Indian Wells, o americano Taylor Fritz e o já citado Novak Djokovic) durante este torneio.
E este é apenas o primeiro título da carreira de Mensik na sua segunda final, depois de ter sido derrotado no ATP de Doha no ano passado contra o russo Karen Khachanov.
Se continuar com esta evolução, tem todas as condições para fazer valer a frase que decidiu escrever na famosa mensagem que os tenistas deixam no fim de cada jogo numa das câmaras que filmou o jogo.
O irreverente Mensik não conteve o seu entusiasmo e escreveu “O primeiro de muitos”, bem revelador da sua ambição e da confiança nas suas capacidades.
E certamente que tem razões para estar tão otimista quanto ao seu futuro. Mensik já é neste momento um dos jogadores com melhor serviço no circuito mundial, onde não faz apenas uso da força dessa pancada, mas igualmente da sua colocação.
É um jogador que apesar da sua estatura (1,93m), tem uma excelente movimentação em campo, e já apresenta índices físicos bastante interessantes para um jogador tão jovem.
Além disso, tem “boa mão”, como se costuma dizer na gíria tenística quando nos referimos a um jogador dotado tecnicamente. Os seus “amorties” desconcertam muitos dos seus adversários, pois para além de serem imprevisíveis e muitíssimo bem executados, Mensik já revela uma grande inteligência de jogo e sabe perfeitamente o momento ideal para realizar essa pancada.
Por vezes, usa essa pancada em excesso, e é algo que terá que aprender a dosear, sob pena de se tornar um jogador previsível e dos seus adversários conseguirem antecipar as suas intenções.
Contudo, essa pancada já é uma das melhores do circuito e Mensik faz muito bom uso da mesma. Devo destacar igualmente a força mental de Mensik, que ficou bem patente no fato de ter ganho todos os tie break disputados neste Masters 1000 de Miami. Disputou sete jogos de desempate, e ganhou os sete (!), uma estatística impressionante e inédita num torneio desta dimensão.
https://x.com/MiamiOpen/status/1906752581105316051
Mensik tem uma personalidade muito extrovertida fora do campo, mas dentro do campo, é de uma frieza impressionante (bem característica da generalidade dos jogadores checos).
Tem obviamente uma grande margem de progressão, deve melhorar o seu jogo de rede (principalmente os seus volleys), e ser mais lesto nas suas tomadas de decisão quando chega a essa zona do campo.
Mas estamos a falar de um jogador que nasceu em Setembro de 2005, que ganhou o seu primeiro título frente àquele que muitos consideram o melhor jogador de todos os tempos (cujos números o sustentam completamente).
Para termos uma noção, Djokovic jogou a primeira final de um Masters 1000 em Agosto de 2005, ou seja, antes do seu adversário desta final ter nascido, o que atesta bem a longevidade do tenista sérvio e a sua consistência ao mais alto nível.
Duas décadas no topo do ténis mundial só está ao alcance de um jogador predestinado, muito focado e muito ambicioso. Muitos tinham mais talento do que Djokovic, mas talento só não chega. É necessário compromisso, dedicação e muito trabalho. Se Mensik tem Djokovic como o seu mentor e se conseguir manter um alto nível durante muitos anos, tem todo um arsenal de pancadas para se tornar num dos melhores jogadores do mundo.
Um dos novos meninos bonitos da Next Gen (juntamente com o fenómeno brasileiro João Fonseca, o francês Arthur Fils, a quem derrotou neste torneio, Learner Tien, entre outros…), travará certamente batalhas muito duras contra tenistas da qualidade e talento do tenista italiano Jannik Sinner ou do espanhol Carlos Alcaraz, dois jogadores que ainda nem completaram 24 anos e já estão no topo do ténis mundial.
Numa final iniciada mais de 6 horas depois da hora prevista (devido às fortes chuvas que assolaram a cidade de Miami no passado fim-de-semana), com uma humidade média relativa de quase 80º (!), Mensik jogou a altíssimo nível nos pontos mais importantes.
Não demonstrou nenhum nervosismo com essa situação, foi quem soube lidar melhor com as tais condições de jogo (Djokovic tem sempre bastante dificuldades quando joga nestas condições, devido aos seus crónicos problemas respiratórios), soube-se manter sempre presente e aguentar fisicamente as trocas de bola mais longas.
Ao contrário da outra vez em que se defrontaram em Shangai no ano passado, Mensik conseguiu manter um grande nível exibicional e não apresentou nenhuma quebra de concentração e de rendimento.
Tinha ganho o primeiro set, mas sabia que teria que ser ele a ganhar o jogo nos seus termos, teria que continuar a ser agressivo na resposta ao serviço e aproveitar as suas oportunidades. E foi isso que Mensik fez.
Em todo o jogo e fazendo uso do seu potente serviço, Mensik teve o seu serviço quebrado apenas uma vez na única (!) oportunidade de que Djokovic dispôs em todo o encontro. Só esse dado é bem demonstrativo da qualidade assombrosa de serviço do tenista checo nesta final. Djokovic é provavelmente o melhor jogador do mundo de todos os tempos a responder ao serviço, e não conseguiu dispor de um único break point em todo o segundo set.
Djokovic poderia ter-se exibido a um melhor nível? Sinceramente não creio que fosse fazer grande diferença. Djokovic conseguiu vários jogos de serviço sem perder um único ponto, ganhou mais pontos do que Mensik e acabou por perder o jogo, mas em dois tie breaks disputadíssimos, decidido nos detalhes e a favor de quem tem o melhor serviço dos dois.
Apesar do cansaço evidente que demonstrou (não só fruto da sua idade, mas convém referir que está perto de completar 38 anos) e de estar a ter um ano decepcionante com eliminações precoces na generalidade dos torneios que disputou frente a adversários de qualidade bastante inferior à dele, o tenista sérvio exibiu-se a grande nível neste torneio.
É verdade que não jogou contra nenhum tenista do top 10 em todo o torneio, o quadro foi-se abrindo, mas Djokovic jogou um grande ténis nesta final. Contra um jogador que não tivesse servido tão bem nos momentos-chave do encontro, Djokovic teria conquistado o primeiro título do ano (sétimo em Miami) e o tão ambicionado e procurado 100º (!) título de uma carreira absolutamente impressionante.
Uma curiosidade em relação a esta conquista de Mensik, e que ainda torna este título mais épico, é a de que o jovem checo esteve perto de desistir do torneio antes do seu primeiro encontro em Miami, frente ao sempre sólido Roberto Bautista-Agut.
Mensik revelou depois de ganhar o torneio que apenas não desistiu (devido a uma inflamação no joelho), porque o juíz-árbitro estava a almoçar e então ele aproveitou esse momento para consultar o fisioterapeuta, que conseguiu fazer um trabalho incrível e tornar o tenista checo apto para competir.
Depois de mais um grande serviço a mais de 200 km/h (a que Djokovic ainda conseguiu responder mas com a bola a sair fora das linhas regulamentares do campo), Mensik ganhava ao seu ídolo Novak Djokovic. Atirou-se para o chão mas apenas momentaneamente, pois correu imediatamente em direção ao seu mestre, que o esperava para lhe dar um grande e fraterno abraço numa das imagens mais impactantes do ano tenístico até este momento.
Num discurso impecável na cerimónia de atribuição de prémios na qual teceu rasgados elogios ao jovem tenista checo, Djokovic disse que Mensik é dos poucos jogadores com quem fica contente de perder, e isso diz muito do que o bom do Jakub representa para Djokovic e do carinho e admiração que o grande campeão sérvio tem pelo seu aluno.
Mensik assaltou Miami numa noite em que o aprendiz ganhou ao mestre.