
Pakhtakor, 14 vezes campeão nos últimos 25 anos, tem sido um «Golias» no Uzbequistão. Contudo, a última temporada foi um autêntico reality check para o clube.
Sediado em Tashkent, o conjunto da capital não só viu a hegemonia - e um potencial hexacampeonato - cair aos pés do «David» Nasaf Qarshi, como também ficou bem distante do topo - sexto lugar, a 14 pontos do primeiro classificado. Bem longe das expectativas da maioria dos adeptos.
Sem grande expressão no contexto asiático, o Pakhtakor procura voltar a ser um clube temido internamente e contratou uma equipa técnica lusa para tal: Pedro Moreira é o treinador principal e, com ele, vieram três jogadores conhecidos dos portugueses e ainda Marco Leite, que regressa ao ativo depois de liderar a UD Oliveirense no início da temporada.
Depois da grande entrevista ao zerozero, em julho do ano transato, o nosso portal falou com técnico de 51 anos sobre a nova experiência, assim como abordou Jhonatan Luiz, guardião brasileiro que abandonou Portugal pela primeira vez desde 2017.
A alma lusa (e brasileira) está bem viva neste Pakhtakor.
«Não me vejo diminuído por voltar a ser adjunto»

Marco Leite, em conversa com o zerozero, explicou o que correu mal em Oliveira de Azeméis, o «regresso» como adjunto e as razões que o motivaram aceitar este «convite asiático».
«O Pedro falou comigo e decidi aceitar, ainda para mais estando familiarizado com saídas para o estrangeiro. Foi algo que fiz durante praticamente quase 14 anos, com o Jorge Costa. É, ainda assim, difícil, por causa da família, filhos, sair de casa... Mas adapto-me facilmente. O país, confesso que não conhecia, mas estive em Tashkent antes de assinar contrato e fiquei bastante impressionado. É uma cidade organizada e boa para viver», começou por explanar.
Um rumo inesperado para o adjunto que, no arranque da temporada, arriscou «a solo» pela primeira vez na carreira. Uma experiência curta mas «digna» para Marco, que, em jeito de reflexão, analisou o que correu menos bem nesta aventura que o «encheu de orgulho».
«Não me arrependo nada de ter tomado a decisão de assumir o comando técnico da Oliveirense. Foi uma oportunidade muito boa, mas claro que não correu de acordo com o que esperava. Era um projeto muito complicado e veio a comprovar-se depois mais tarde. O projeto acabou, cada um seguiu o seu caminho, tive este convite e não pretendia ficar parado. Foi algo natural. Não me vejo diminuído pelo facto de ter sido treinador principal e passar novamente para adjunto. Não vejo nada de mal nisso, apenas vontade de trabalhar.»
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Marco Leite UD Oliveirense [ ] 2025 |
8 Jogos
1 Vitórias
2 Empates
5 Derrotas
7 Golos
14 Golos sofridos
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«O trabalho que fiz na Oliveirense foi um trabalho digno. Um trabalho que me encheu de orgulho porque consegui fazer aquilo que realmente queria. Não tive as armas que atualmente a equipa tem para lutar pelos seus objetivos, mas não me arrependo de rigorosamente nada», completou.
Mais tarde, o passo seguinte: Pakhtakor. Marco regressou a técnico-adjunto e descreveu a adaptação a um clube «grande» e «em crescimento».
«Vejo isto como um passo em frente. O Pakhtakor é um clube que habitualmente luta para ser campeão do seu país e disputa a Champions Asiática. Estou de corpo e alma como adjunto. É o maior clube do Uzbequistão. É o clube com mais força e mais adeptos, é um clube muito grande e com boas condições de trabalho. No entanto, de certa forma, ainda estão a dar uns passos para que se possam assumir como um clube com uma dimensão - para não chocar ninguém - profissionalmente europeia», elucidou.
«O Uzbequistão está a crescer, a seleção do Uzbequistão também está a crescer, o campeonato está a crescer e a entrada de estrangeiros está a aumentar. É um campeonato que ainda nos diz pouco, mas não é assim um campeonato tão fácil, nem vai ser um passeio como eventualmente muitas pessoas pensam. Vai ser interessante.»
Do ponto de vista cultural, a mudança foi, também, muito significativa. O treinador português assumiu que a questão religiosa já teve impacto na temporada, em particular na partida contra o Al Hilal, de Jorge Jesus.
«Há muitas coisas no clube às quais ainda nos estamos a adaptar. Por exemplo, a questão religiosa é algo que eles levam de uma forma muito séria e rigorosa. Eu já estava muito habituado, mas os meus colegas nem tanto... O Al Hilal foi difícil. O primeiro jogo deu para assustar, fomos mais equipa do que eles.»

«No segundo jogo, a questão religiosa e os seus deveres religiosos [Ramadão] acho que pesaram bastante. Ambos têm muçulmanos nos seus plantéis, claro, mas acho que a nossa equipa foi a pensar muito nisso e respeitaram em demasia o Al Hilal.»
[N.d.r: o Pakhtakor, apesar de ter vencido a primeira mão dos oitavos da Champions Asiática contra o Al Hilal, acabou por ser goleado na segunda mão]
Para além da equipa técnica liderada por Pedro Moreira, onde Marco é uma das principais facetas, vieram também vários jogadores «conhecidos» dos portugueses. Brayan Riascos, Jonatan Lucca e, por fim, Jhonatan Luiz, um brasileiro que encontrou em Portugal - e mais especificamente em Vila do Conde - uma casa.
«Eles deram-nos um orçamento para contratar jogadores estrangeiros e alguns foram propostos, outros fomos nós que escolhemos. A relação entre os uzbeques e os estrangeiros é um desafio grande, mas que está a ser ganho e que está a acontecer de forma natural. A grande desvantagem que temos é a língua, porque a maioria não percebe inglês, mas é o possível», concluiu o técnico luso.
«Terminava o treino e cada um ia para o seu quarto...»

Em conversa com o nosso portal, o experiente guarda-redes brasileiro - com mais de 120 jogos no primeiro escalão do futebol português - falou das dificuldades na adaptação à cultura asiática e explicou a decisão de abandonar o Rio Ave, após 109 partidas pelo emblema rioavista.
«Fomos muito bem recebidos pelos adeptos e por todos que trabalham no clube. É um clube grande com muitos adeptos, a atmosfera no estádio é excelente», começou por introduzir o guardião, de 33 anos.
«A questão da adaptação à cultura asiática e o começo foi um pouco estranho. A alimentação, a língua... A maioria deles não sabe falar inglês e essa questão da comunicação dificulta. O mister teve de mudar algumas coisas quando chegou. Por exemplo, não havia um balneário antes, o que para nós é um pouco estranho. Terminava o treino e cada um ia para o seu quarto, desde os jogadores ao departamento médico. Então o clube respondeu aos pedidos do mister Pedro e agora está diferente», sublinhou.
«O futebol não é muito intenso/forte como o europeu, mas o Pakhtakor é um clube forte no país, joga Champions Asiática, tem visibilidade e eu pensei: 'Vou jogar, consigo aparecer nestes lado da Ásia e, financeiramente, claro que também me compensa'. Quando um jogador vai para a Arábia ou Ásia vê mais o lado financeiro, naturalmente», explanou.
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Jhonatan Luiz 4 títulos oficiais |
Em Vila do Conde, onde Jhonatan tem casa e foi «muito feliz», o guardião viu Cezary Miszta agarrar a titularidade na nona jornada do campeonato e, desde então, apenas jogou uma partida (Taça de Portugal).
Um fator que pesou na saída do brasileiro. Jhonatan procurava voltar a ser «importante» e a decisão, depois de muita reflexão, foi fácil.
«Eu não estava a jogar no Rio Ave, não sei se por questões da administração da nova direção do clube, e o meu contrato acabava em maio. Como vi que não tinha mais possibilidade de jogar no Rio Ave, decidi sair. Também esperei por algumas propostas de Portugal e cheguei mesmo a ter uma do Estrela da Amadora, mas decidi esperar para ver outras opções», relatou.
«Depois surgiu a oportunidade do Pakhtakor. O Pedro Moreira soube da minha situação no Rio Ave e vieram logo atrás de mim.»
«Não conhecia a cidade, o país e o clube, entretanto até apareceram umas propostas da Arábia, mas acabei por pesquisar sobre o Pakhtakor e, quando vi que a competição/clube/cidade era incrível, acabei por decidir ir para o Uzbequistão», rematou.
Até ao momento, o clube perdeu o único jogo que disputou no campeonato. Agora fica a questão: com tanto Portugal (e Brasil) no dia a dia, conseguirá o Pakhtakor recuperar a hegemonia no Uzbequistão?