Helena Canhão é diretora da Nova Medical School, da Universidade Nova de Lisboa, desde janeiro de 2022, cargo que assumiu ainda no rescaldo da pandemia. Com um já extenso currículo, como médica especialista em reumatologia e como professora Catedrática de Medicina, tendo ocupado variados cargos pelo caminho, como o de presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, esta responsável conversou com a Forbes Portugal sobre o papel das mulheres na área da ciência, da investigação e da saúde.

Refere que muitas vezes foi a primeira mulher em algumas situações, como, por exemplo a fazer o doutoramento, a primeira a liderar algumas equipas, e até a única mulher no meio de homens em conselhos consultivos de líderes de opinião. Mas acredita que a situação está a mudar e que na área da saúde já há até muitas mulheres líderes. Para ela, há bons e maus líderes, independentemente do género. Agora, no mundo da ciência e da investigação, continua a haver a haver uma predominância masculina nas posições de liderança. Sobretudo no meio catedrático, por motivos históricos, explica.

Com um extenso currículo na área, como é que enfrentou o desafio deste novo cargo de diretora da Nova Medical School?

Estes cargos enfrentam-se com espírito de missão. Por um lado, há uma vontade de promover o desenvolvimento da escola e isso acontece com uma estratégia por detrás, com objetivos bem definidos e com uma equipa adequada para os implementar. Ser diretora da Nova Medical School, cargo que assumi há três anos, é um cargo de grande responsabilidade. É um trabalho público onde, além de ensinar, prestar assistência, investigar, e trabalhar com as comunidades, tem um forte componente de liderança e gestão.

Quais foram os principais desafios e barreiras que enfrentou? Ser mulher foi uma delas, ou não teve qualquer tipo de constrangimento a esse nível?

Não é fácil gerir no seio da administração pública. Há sempre algumas dificuldades quer do ponto de vista orçamental, quer de instrumentos para enfrentar esses desafios. Há também alguns obstáculos e resistência, sobretudo numa instituição que não é pequena e que tem procedimentos estabelecidos há muito tempo. No entanto, com diálogo e justificação dos processos, consegue-se trabalhar, sobretudo porque as circunstâncias vão mudando e, portanto, as respostas têm de ser diferentes das que existiam antes.

“Em relação a ser mulher, não diria que neste meio haja constrangimentos desses, porque na saúde há muitas mulheres líderes”, afirma Helena Canhão.

Eu tomei posse a 1 de janeiro de 2022, no rescaldo da pandemia. Obviamente que, neste caso, a diretora que assumisse funções teria desafios completamente diferentes daqueles que existiam em 2018 ou em junho de 2020, sobretudo numa escola de medicina em que temos estudantes que trabalham com doentes dentro das unidades de saúde. Foi uma altura muito desafiante, não só para responder aos desafios que já existiam antes e durante a pandemia, mas depois para a organização do que veio a seguir.

Em relação a ser mulher, não diria que neste meio haja constrangimentos desses, porque na saúde há muitas mulheres líderes. Eu já tinha sido, por exemplo, Presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, responsável por centros e unidades de investigação, unidades clínicas, grupos de trabalho vários.

Sente, de alguma forma, que ser uma mulher à frente da instituição tem algum impacto ou faz a diferença, quer na instituição, quer no mercado em si?

Noto algumas diferenças neste aspeto. Por um lado, acho que cada pessoa tem a sua personalidade e o seu estilo próprio e a minha forma de liderar é, sem dúvida, influenciada pelo facto de ser mulher. E isso faz diferença na forma como estou na instituição e também nesta fase da Nova Medical School, em que há uma grande transformação. Dentro da instituição não sinto que existam grandes diferenças nem constrangimentos, mas para fora da instituição e no mercado, ainda se nota que sou mulher, porque continuamos a ter muitos homens como líderes nas instituições de ensino.

Considera que teve, de alguma forma, de adaptar o seu estilo de liderança para este cargo ou manteve o seu cunho pessoal? Acredita num estilo de liderança mais feminino, ou apenas há estilos de liderança independentemente do género?

Um líder tem de ser alguém flexível e capaz de se adaptar às situações. Mas também deve ser consistente e agir de acordo com o seu estilo, caso contrário, não conseguirá manter uma liderança eficaz, de forma sustentada. Obviamente, se não demonstrar alguma flexibilidade de acordo com o que tem de enfrentar, com os recursos de que dispõe, é também um mau líder. Acho que há bons e maus líderes, independentemente do género.

Sentiu que de alguma forma precisou provar mais o seu valor no mundo da ciência e da investigação por ser mulher?

Acho que, este mundo da ciência e da investigação não é o meio mais hostil para as mulheres. No entanto, ao longo da carreira, continua a haver uma predominância masculina nas posições de liderança, mesmo numa área que, atualmente, é maioritariamente feminina. No meu caso, tenho uma especialidade que, atualmente, é dominada por mulheres, mas que, numa fase inicial, era dominada por homens.

Muitas vezes fui a primeira mulher, por exemplo a fazer o doutoramento, a primeira a fazer agregação, a primeira a liderar algumas equipas, a única mulher no meio de homens em conselhos consultivos de líderes de opinião, etc. Isso aconteceu porque na altura não havia muitas mulheres na minha especialidade e ainda menos a fazer doutoramento. Atualmente, isso já não acontece, e nos fóruns de líderes em que participo já há muitas mulheres.

“Do ponto de vista do utilizador, o facto de as mulheres dominarem a população idosa e, portanto, serem elas o público-alvo a que se destina muito do trabalho que está a ser feito na área da saúde, também é promotor de mudanças positivas e evolução.”, refere a diretora.

A nossa sociedade tem evoluído muito. Não só a área da ciência e da saúde, é uma área de grande desenvolvimento, com muita tecnologia e inovação, como também tem um impacto direto na vida das pessoas. Portanto, todos os recursos, quer físicos, quer humanos, quer de conhecimento, bem como o ecossistema, as políticas, tudo nesta área da saúde, da ciência e da investigação, está em permanente mudança. Há um reconhecimento cada vez maior da necessidade de colaboração, da necessidade de haver experiência e contributos de pessoas muito diferentes umas das outras e do papel fundamental da mulher enquanto profissional neste ecossistema.

Do ponto de vista do utilizador, o facto de as mulheres dominarem a população idosa e, portanto, serem elas o público-alvo a que se destina muito do trabalho que está a ser feito na área da saúde, também é promotor de mudanças positivas e evolução.

Como vê atualmente o mercado onde atua relativamente ao papel das mulheres na ciência e na investigação?

Como digo, nestas áreas da ciência e da investigação, que são áreas diferenciadas, as mulheres são a maioria e dominam em número. Por conseguinte, acabam por liderar cada vez mais, até por uma questão proporcional.

Obviamente, para mim, o mais importante são as equipas e estas devem ser o mais diversas possível, porque ficam muito mais ricas com a contribuição de homens e mulheres, mais jovens e mais experientes, nacionais e estrangeiras, que trabalham na mesma instituição ou noutras, portanto, quanto mais diverso, mais rico é o contributo de cada um para o desempenho das nossas funções, que são sobretudo de equipa.

O que mudou nos últimos anos, e o que ainda necessita ser feito?

Há muito trabalho pela frente, continuamos com muitas desigualdades e com muitas pessoas, sobretudo mulheres, crianças e jovens, a viverem sem acesso à educação e a uma vida digna. A pobreza continua a ser um problema em Portugal. O mundo continua muito desigual e, quando vemos toda a instabilidade, tanto a nível nacional, como a nível internacional, vemos que há muito a fazer. Estamos, sobretudo agora, numa época especialmente difícil.

“O mundo continua muito desigual e, quando vemos toda a instabilidade, tanto a nível nacional, como a nível internacional, vemos que há muito a fazer”, diz.

Pensámos que, com a pandemia, as pessoas tinham percebido como o mundo era frágil e uniram esforços para colaborar. As pessoas trabalharam muito em conjunto e, de repente, passámos essa fase tão difícil e começamos a perceber que, do ponto de vista da insegurança, dos extremismos, das dificuldades sociais, da falta de entendimento entre os povos e do poder, ainda estamos numa fase pior. Portanto, há muito a fazer e vamos atravessar alguns anos que não serão fáceis.

Havendo cada vez mais mulheres nas áreas de ciência e tecnologia, porque ascendem menos a cargos de liderança? Ou seja, porque não ascendem à liderança na mesma proporção? Quais os principais entraves?

Obviamente, há entraves históricos neste processo e as mudanças levam tempo. Isto faz parte de mudanças na educação, na organização e na cultura, nas expectativas e nas barreiras, que são muito culturais e foram construídas ao longo de séculos em torno dos papéis de cada um. Portanto, é natural que a mudança não seja imediata, mas tenho a certeza de que vai acontecer, ainda que não da mesma forma em todo o mundo. Esta educação tem de ser feita desde o início, em casa, nas escolas e por todos os agentes que podem permitir e facilitar que esta mudança aconteça.

O facto de, no passado, as mulheres ficarem em casa depois do casamento, dos filhos ou para cuidar de alguém na família, isso tinha repercussões no desempenho profissional, ou pelo menos era um argumento e fez com que os lugares, quando eram disputados entre homens e mulheres, frequentemente pendiam para o lado dos homens. Atualmente há cada vez menos entraves e vão depender mais da competência e da personalidade das pessoas. Há pessoas que também preferem não assumir cargos de liderança e é uma opção tão aceitável como outra qualquer. Portanto, depende do ecossistema, mas também das escolhas de cada um. O mais importante é a pessoa ser reconhecida pela competência, experiência e adequabilidade ao cargo, independentemente do seu género.

Este cargo que assumiu à frente da NMS é a prova de que é possível contrariar a tendência de ter mais homens a liderar nas áreas de ciência, através da qualidade, do mérito, da perseverança?

Este cargo de diretora, não é de nomeação e sim por eleição. Portanto, primeiro foi necessário decidir avançar com uma candidatura e depois submetê-la ao escrutínio da comunidade que elege a diretora. E, portanto, neste caso, o primeiro passo foi ter um plano, um projeto em que as pessoas da comunidade acreditassem, para o pôr em prática.

Obviamente, há reconhecimento de quem se propõe a executar algo e o consegue fazer. Penso que cada vez mais há prova de que as mulheres, tal como os homens, conseguem implementar projetos e programas e que planear a longo prazo é importante, pois permite ajudar as instituições a terem uma visão de médio e longo prazo, preparando as condições para um desenvolvimento sustentado no futuro.

“(…) As instituições precisam de renovação e de pessoas com energia para implementar projetos e que, depois, são substituídas por outras com energia renovada”, afirma Helena Canhão.

Felizmente, estas posições são transitórias, ou seja, as pessoas ocupam-nas durante um determinado período e, pelos estatutos e regulamentos, não se podem eternizar. Isso é fundamental porque as instituições precisam de renovação e de pessoas com energia para implementar projetos e que, depois, são substituídas por outras com energia renovada. E aqui é indiferente ser homem ou mulher, acho que é sobretudo preciso sentir que se está em representação da instituição e a trabalhar para o bem comum, uma missão conjunta e que só se atinge em equipa.

Por outro lado, sente que os investidores preferem apostar mais em projetos liderados por homens, ou esta questão já não se põe?

Nesta área específica da saúde penso que não. Poderão existir áreas em que os homens ainda dominam. Na docência por exemplo, os catedráticos continuam com grande predominância a ser homens, não por atualmente haver preferências de género, mas porque do ponto de vista histórico a carreira era dominada por homens e, por isso, demora alguns anos até se verificar o equilíbrio nas posições mais elevadas.

O mérito e a competência são fundamentais, mas também o tempo que se demora até atingir determinadas posições, faz com que o histórico seja importante. Não diria que há uma aposta em mais projetos liderados por homens. Acho que há mais homens em condições de liderar, mas que está a mudar.

O que nos reserva o futuro quando falamos de mulheres na liderança nas áreas científicas e da saúde? Estima-se que os números melhorem?

Sim, definitivamente esta resposta é sim. Há uma mudança marcada nas áreas científicas, nomeadamente na área da saúde. Por conseguinte, qualquer dia, talvez até tenhamos de começar a pensar em quotas para homens, visto haver cada vez mais mulheres nesta área. O que pretendemos é que haja homens e mulheres competentes, sociedades iguais que proporcionem as mesmas oportunidades a todos, independentemente do seu género, raça, etnia, país de origem ou meio onde nasceram ou se desenvolveram. O desenvolvimento e as competências também dependem muito do meio onde se está inserido.

“As mulheres têm um contributo enorme para dar e queremos que esse contributo seja cada vez mais reconhecido. E que todos contribuamos para um mundo melhor nesta altura tão desafiante, em termos mundiais (…)”, refere a diretora.

Nós, enquanto educadores e profissionais de ciência e saúde, temos de proporcionar oportunidades iguais a todos e, como referi anteriormente, a diversidade é também uma das maiores riquezas que podemos ter. É enriquecedor termos pessoas que pensam de forma diferente e com experiências diferentes. Isso enriquece o mundo científico e o mundo da saúde e proporciona oportunidades iguais a todos, mas com respeito pela diversidade e pelas diferenças, pois só assim podemos construir um mundo mais justo.

As mulheres têm um contributo enorme para dar e queremos que esse contributo seja cada vez mais reconhecido. E que todos contribuamos para um mundo melhor nesta altura tão desafiante, em termos mundiais, com tantos desafios relacionados com o clima, guerras, pobreza, falta de recursos e desigualdade.