
Quase um quarto dos bancos europeus (22,47%) não tem financiamento suficiente em dólares americanos para cobrir as suas exposições à moeda, alimentando a preocupação dos reguladores sobre as fragilidades que podem surgir pelo aumento das tensões geopolíticas.
Um novo relatório da Autoridade Bancária Europeia (ABE) refere que 60 dos 267 bancos com exposição aos EUA não dispõem de financiamento suficiente em dólares para as cobrir. Ou seja, esses bancos emprestam ou investem em dólares, mas não têm reservas suficientes na mesma moeda para garantir esses compromissos.
As conclusões ABE foram divulgadas nesta quinta-feira, dia em que Donald Trump anunciou o valor das tarifas comerciais que os EUA vão impor aos produtos importados de outros países e que, no caso da União Europeia (UE), se cifram nos 20%.
Segundo o Financial Times, a situação está a levantar dúvidas nas instâncias europeias sobre se ainda podem contar com os dólares americanos fornecidos pela Reserva Federal dos EUA através de uma linha de swap ao Banco Central Europeu, um mecanismo utilizado em crises passadas para evitar problemas de liquidez. Os dólares americanos representam um quinto do financiamento total dos bancos na UE, segundo a ABE.
A ABE constatou também que os bancos norte-americanos aumentaram a sua quota no mercado de serviços financeiros da UE nos últimos anos e ganharam uma presença importante em áreas de produtos essenciais, como a negociação de derivados, onde detêm quase 28% do mercado.
“Estes dados podem ser muito interessantes do ponto de vista do trabalho que está a ser feito pela Comissão Europeia sobre a independência económica e a autonomia estratégica da UE”, refere Olli Castrén, diretor de Economia da Autoridade Bancária Europeia, segundo o Financial Times.
A ABE refere que os bancos têm um terço dos seus ativos em moeda estrangeira e que, por isso, “devem prestar atenção” a qualquer défice de financiamento em moeda estrangeira e garantir a cobertura adequada.
Segundo a Autoridade, os bancos dos EUA aumentaram a sua quota no mercado da UE de 4% em junho de 2021 para 4,6% em dezembro de 2023. Também refere que a quota de mercado da UE dos bancos sediados no Reino Unido diminuiu de 5,7 por cento para 4,2 por cento, o que pode refletir o impacto do Brexit em desencorajar os bancos britânicos de manter grandes operações na UE.
O Financial Times refere que alguns decisores estão preocupados com o risco estratégico de depender tanto dos bancos norte-americanos em certas áreas do mercado dos serviços financeiros. Porém, Castrén minimiza esses receios, referindo que “a UE defende o comércio livre, pelo que esta não deve ser uma grande preocupação”.