
— O apuramento da Seleção para o EuroBasket é a concretização de um objetivo coletivo e pessoal?
— Foi um processo longo, em que poucos acreditavam há uns anos, quando aquele começou. Nós começámos... nas pré-qualificações. A jogar contra a Alemanha, contra o Chipre, contra a Bielorrússia... E ninguém acreditava que iríamos conseguir escalar toda a Europa, para chegar ao EuroBasket. Só nós sabíamos que seríamos capazes. E, aos poucos e poucos, fomos passando várias fases de qualificação, sem margem de erro, porque é muito difícil ir ao EuroBasket quando se está na nossa situação.
Tivemos muitas fases para passar. Qualificações de três, quatro equipas em que só passava a primeira. Fomos passando, passando, passando... até chegar a esta fase final já de qualificação, em que já são seleções de topo, e conseguimos a qualificação. A nível pessoal, era um sonho que tinha. Em 2007, Portugal participou no EuroBasket em Espanha. A fase de grupos foi em Sevilha e fui com o meu pai. Fomos ver todos os jogos da fase de grupos e vibrei imenso. Já jogava basquetebol, e tornou-se um sonho jogar num palco daqueles. Chegou essa hora, no verão lá estaremos.
— E é uma ambição só jogar ou também há objetivos desportivos a cumprir?
— Claro que há objetivos! Lá está, fomos passando de fase em fase de qualificação... Não faz sentido já estarmos nesta fase, e pronto, o nosso objetivo já não seja passar... não! Creio que independentemente dos adversários que nos calharem, que serão muito difíceis e de um nível a que não estamos habituados a competir, só faz sentido traçar objetivos e tentar concretizá-los.
Estando numa fase de grupos em que serão seis equipas e passam os quatro primeiros. Obviamente, temos aspirações a ultrapassar a fase de grupos! Não seremos obrigados a isso, tendo em conta o nosso ranking, o nosso nível de competição, as ligas onde nós jogamos... Porque, tirando o Neemias [Queta] e o Travante [Williams], que jogou ano passado na ACB e neste está na Roménia, não temos jogadores de ligas de alto nível, como os adversários que iremos enfrentar no EuroBasket. Portanto, não temos obrigação de nada. Temos é de treinar bem durante a preparação, dar o máximo jogo a jogo, sempre com o objetivo de competir e tentar ganhar o máximo de jogos possível.
— A qualificação reflete uma evolução do basquetebol português...
— Sim, repare, sinto que a Federação dá muito melhores condições à Seleção. Senti uma evolução muito grande e isso reflete-se, sem dúvida, nos resultados. Não estou a falar de questões monetárias, mas de condições de fisioterapia, de treino, dos hotéis onde estagiamos, das viagens. Já não fazemos só a viagem mais barata, fazemos a viagem mais cómoda e mais rápida possível, para não chegarmos ao destino dos jogos muito cansados. Toda a gente, acho, tem noção que em todas as modalidades isto acontece, tirando no futebol. Não temos a capacidade de fretar um avião e irmos direto para o destino, como acontece com as equipas de futebol. Viajamos em voos comerciais nos clubes e na Seleção. É todo um mundo diferente do futebol.
E isso é uma das melhorias na Seleção que fez toda a diferença. E depois a mentalidade do jogador português. Creio que mudou um bocado nos últimos anos, com esta renovação do grupo, com os jogadores mais novos que chegaram. Só comecei a ir à Seleção em 2019 e fui inserido num grupo novo que fez ali uma revolução, mudámos um bocado as mentalidades. Estamos na Seleção para treinar, jogar e ganhar. Não estamos só a representar o país.
— Como é que é ser jogador de basquetebol ao mais alto nível em Portugal?
— É difícil para nós, para quem ama o basquetebol, porque a nível mundial o basquetebol está quase ao nível do futebol. Nos Estados Unidos, a NBA, claro, mas também a nível europeu a Euroliga movimenta milhões, movimenta massas como o futebol. Só que em Portugal não temos essa cultura e o basquetebol nunca foi reconhecido como tal. Já foi em tempos, se calhar, a segunda modalidade, mas há uns anos ficou um pouco para trás das outras de pavilhão. Agora, com a ida do Neemias para a NBA, com as melhorias das condições da Federação, nota-se uma evolução.
E nos próprios clubes também. Puxando a brasa à minha sardinha, o regresso do Sporting mexeu muito na Liga portuguesa, porque é uma equipa que veio para conquistar títulos, para competir, e obrigou as outras, não só os grandes, mas as que normalmente ocupam lugares mais abaixo classificação, a melhorarem. E, portanto, desde 2019, desde o regresso do Sporting, a Liga subiu muito o nível. Isso é sempre positivo.
— Que contributo reconhece ao Neemias?
— Muito. Há muitos mais miúdos agora a quererem jogar basquetebol, que almejam chegar ao mesmo patamar que Neemias, porque ele mostrou que é possível, que um miúdo que começa a jogar basquetebol em Portugal chegue ao nível onde ele está, à NBA.
— Pessoalmente, quais são as ambições de carreira aos 30 anos? Além de ganhar títulos?
— Claro que tenho. Acho que no dia em que não sentir aquele nervosinho na barriga antes dos jogos, quando não sentir aquele nervosinho para ganhar uma taça, um campeonato, já não estou aqui a fazer nada. Ainda sinto isso, e muito. E sei que o vou sentir durante muitos mais anos. E no dia a dia, dar o meu máximo e conquistar o máximo de títulos possível.
— Sente-se realizado?
— Sou um sortudo porque gosto muito da profissão que tenho. Gosto muito de jogar basquetebol, de ser profissional, representar um grande clube como o Sporting, que me dá muito boas condições. Por isso, estou muito feliz.
— Há sempre por onde evoluir...
— No basquetebol, como no desporto em geral, cada vez se dá mais importância à alimentação, ao descanso, à fisioterapia, à psicologia. A tecnologia já entrou em força no desporto, há bastantes estudos, imensa ciência a trabalhar no desporto, e, por isso, hoje em dia, as qualidades físicas dos atletas melhoraram exponencialmente. Há cada vez mais jogadores mais altos e que saltam mais e são mais rápidos. Antigamente, havia jogadores muito altos, mas com pouca mobilidade. Hoje em dia não, temos jogadores com dois metros e muito, que correm e saltam muito, como se fossem de estatura mais baixa.
— Deve-se à evolução do treino?
— Sim, a dinâmica de treino, principalmente de força, no ginásio, mudou muito de há 10 anos para cá, e toda a gente sabe. Ano após ano, mês após mês, há inovações no treino de força, e isso faz toda a diferença. Mas mais. Há muito mais informação, a nível de nutrição, do descanso, do sono, que é o fator número 1, na minha opinião, de recuperação.
A psicologia também é um fator muito importante no desporto, porque podemos estar muito bem das pernas e do corpo todo, mas se a cabeça não está bem, as coisas não funcionam. Hoje em dia temos acesso a todas essas disciplinas que ajudam o atleta a cuidar do corpo e da mente. E voltando a falar do Sporting, temos acesso a todas essas disciplinas que acabei de falar, temos muita sorte quanto a isso.
— Como ocupa o tempo livre?
— Este ano começou uma etapa nova na minha vida. Primeiro, porque fui pai no último verão, pela primeira vez, e então todos os dias há novidades. Tenho uma filha a crescer, todos os dias há coisas diferentes. A parte do descanso ainda se torna mais importante, porque, ou é naquelas horas ou já não há [descanso]... Tem de ser tudo muito mais regrado, muito mais disciplinado. Segundo, porque gosto muito de desporto, de basquetebol, e comecei a tirar uma pós-graduação. Já tinha uma licenciatura não ligada ao desporto, mas à gestão, e este ano comecei a tirar uma pós-graduação em gestão do desporto.
— Que pretende seguir após a carreira de jogador?
— Não sei, não sei... Gostava de tirar também o curso de treinador, tentar tirar até o nível 3, que é o máximo que há em Portugal. Não me vejo a ser treinador, mas tenho curiosidade em tirar o curso. Lá está, gosto muito de basquetebol e não me importo nada. A continuar ligado ao desporto, gostava de estar mais ligado à parte da gestão, gosto muito dessa parte, interessa-me, mesmo nas competições da FIBA.
— Gestão no sentido do dirigismo desportivo? Haverá em si um futuro presidente do Sporting?
— Não, não vou estar aqui a entrar nisso... Não, não! Estou só a tirar o curso e estou a gostar imenso. Porque já que tenho alguma notoriedade no basquetebol português, gostava de continuar ligado à modalidade. Se tiver que ser noutro desporto será, mas, sim, para já é um hobby. Não sei o que me reserva o futuro.