Consensualizou-se que por a bola estar presente no mesmo campo que duas partes interessadas, o seu usufruto é divido como numa sociedade por quotas. Contudo, o deleite que dela faz cada uma das contraentes tende a ser desigual, aproveitando mais quem tem poder e condições para a gerir. Aquele cintilante pentágono não foi estampado na frente da camisola das jogadoras espanholas ao acaso. O emblema dourado está consignado só e apenas às campeãs do mundo, uma equipa com estatuto para deter a fatia maioritária do isco do jogo.

Era tudo o que Francisco Neto queria evitar. No entanto, por vezes, é preciso que nos contentemos com os inevitáveis sintomas das nossas fragilidades e ofereçamos à virtude alheia o mérito de termos largado o volante do destino. Só que Portugal resistiu à tentativa de que lhe fosse induzido um estado de hipnose que facilitasse a vida à Espanha e aí o jogo tornou-se vívido, repartido e, em alguns momentos, com um equilíbrio pouco conjeturável.

Só Alexia Putellas e Aitana Bonmatí têm quatro Bolas de Ouro. Junte-se-lhes Patri Guijarro, Salma Paralluelo, Clàudia Pina e Mariona Caldentey, talento todo ele disposto do meio-campo para a frente, e não é preciso esforçar muita a vista para encontrar razões para o desfecho (2-4). Partindo do princípio que seria impossível obnubilar a produção atacante destas serventes da criatividade, era preciso dar-lhes uma resposta à altura.

Octavio Passos

A seleção nacional encontrou autênticas crateras para chegar à baliza. Se Diana Silva e Ana Capeta são as melhores jogadoras para servirem de apoio frontal? Não. Se o cumpriram e deram muito trabalho às centrais? Sim. De falta de sentido tático, aquilo que pode sempre atenuar algumas diferenças, ninguém pode acusar Portugal. No empate contra a Inglaterra (1-1), na primeira jornada desta Liga das Nações, com a transfiguração da primeira para a segunda parte, já se tinha notado tal característica. Desta vez, diante da Espanha, confirmou-se que Portugal não é estanque na forma de jogar.

A pouco demorada conclusão dos ataques, característica comum a ambas as equipas, levou a um oscilante sentido de jogo. Aos dois minutos, Portugal tinha já feito dois remates, um deles através de Diana Silva numa zona bastante favorável. O problema foi mesmo a ressaca. No day after das bolas paradas, a seleção deixou escapar o jogo. Um mau alívio terminou nos pés de Aitana Bonmatí, a quem o irrequieto objeto redondo reconhece legitimidade nas ordens pela jogadora do Barcelona proferidas, e esta levantou-a para Patri Guijarro finalizar. No segundo golo, basta substituir os nomes e atribuir a assistência a Clàudia Pina e o golo a Laia Aleixandri, uma vez que a ação foi igual.

O final da primeira parte foi absolutamente fatídico. Quando Catarina Amado fez o 1-1, em cima da saída ao desvario de Cata Coll, instalou-se um sentimento de que Portugal estaria capaz de reagir às adversidades e, quem sabe, causá-las mais do que senti-las. Porém, Clàudia Pina colocou a seleção espanhola a vencer por dois golos ao intervalo.

Aquilo que podia parecer uma certa selvajaria tática era, na verdade, uma demonstração da multifuncionalidade de Aitana Bonmatí, Mariona Caldentey, Clàudia Pina e Patri Guijarro, grupo que, com nexo, se desprendia facilmente do posicionamento inicial. Alexia Putellas e Salma Paralluelo eram, no miolo deste corrupio, as mais estanques.

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A equipa de Francisco Neto, refém das ausências de Kika Nazareth e Jéssica Silva, mantinha a postura ousada: bloco subido e uma linha de quatro adiantada. Por muito que, do lado direito, o treinador tenha colocado duas laterais, Catarina Amado não tendeu a baixar para o enfiamento de Ana Borges.

Montse Tomé não tinha no banco Jenni Hermoso, agredida sexualmente por Luis Rubiales na final do Campeonato do Mundo. A selecionadora diz não existir nenhum motivo extra desportivo para o afastamento, preferindo convocar jogadoras como Esther González e Vicky López, Athenea Del Castillo ou Maite Zubieta.

Tudo parecia caminhar para que Espanha concretizasse a sua hipnose evolutiva. Porém, Portugal aproveitou o facto da linha defensiva das adversárias – sem Olga Carmona, Ona Batlle, Irene Paredes ou Mapi León – não ser tão fiável como a ofensiva. A varridela de Jana Fernandéz a Joana Marchão levou Carole Costa para o seu resort, a marca de grande penalidade. Com 3-2 no marcador e mais de 30 minutos para jogar, a seleção nacional espreitava pela fresta da porta à procura de pontos. Ainda assim, a Espanha deu pouca abertura para que tal acontecesse e até marcou novamente, explorando o espaço nas costas das laterais (ponto débil durante todo o jogo) com Athenea Del Castillo a cruzar para Esther González.

Percebeu-se a razão para Portugal ter chegado à terceira jornada do grupo 3 (Divisão A) com mais pontos do que as campeãs do mundo. Talvez a seleção nacional tenha jogado de uma forma que não podia para ter hipóteses reais de ganhar. De qualquer forma, obrigado, pois se assim não fosse isto teria sido bem menos divertido. Os dois países que fizeram parte de uma candidatura recusada para a organização do Mundial 2035 voltam a defrontar-se na terça-feira. E, já agora, também no Europeu, em julho.