
A Escola Livre escreveu uma das páginas mais douradas da história centenária do clube, a 23 de março de 2025, a ao vencer o Valdagno por 6-0 e conquistar a primeira edição da WSE Cup. Quatro anos depois de a secção de hóquei feminino ter sido reativada, o primeiro título chegou pela porta da Europa.
Tudo começou em 2021 com a chegada de Paulo Martins à presidência do clube fundado a 1 de dezembro de 1923, conta a A BOLA, Jorge Guerreiro, responsável pela secção: «Nós sentimos que o clube precisava de ter sangue novo porque estava muito parado. A única diferenciação que poderia haver em Oliveira de Azeméis era exatamente o hóquei em patins feminino.»
Do inferno das goleadas ao céu dos troféus em três anos
A equipa feminina de hóquei da Escola Livre entrou no rinque pela primeira vez desde o século passado, a 31 de outubro de 2021 frente à Sanjoanense, e sofreu uma derrota pesada por 1-10.
A autora do primeiro golo do regresso do clube de Oliveira de Azeméis ao hóquei feminino, Inês Cardoso, permanece no plantel quatro épocas depois, tal como Joana Silva e Letícia Oliveira. «Estar cá desde o início torna-se ainda mais especial porque acompanho tudo aquilo que têm feito para promover o Hóquei Feminino. Sentimos a responsabilidade de dar este título ao clube exatamente por isso», admitiu a jogadora de 22 anos.
Após uma temporada com o rendimento expectável para uma estreante, em 2022/2023 a Escola Livre conquistou a primeira vitória na Taça de Portugal e ficou à porta da fase final do play-off, depois de ter sido eliminada pela AD Sanjoanense na fase de apuramento.
A equipa foi subindo degraus competitivo e começou a construir o sonho europeu com as contratações de Beatriz Carmo, Margarida António e Maria Agustina Pinto e com a troca de timoneiro, para a temporada 2023/2024.
Sob o comando de Miguel Resende, a Escola Livre alcançou o play-off de apuramento de campeão e garantiu a qualificação para a primeira edição da WSE Cup. Esta temporada, quatro derrotas nos primeiros seis jogos foram um pequeno acidente num percurso relativamente tranquilo até ao terceiro lugar na zona Norte, intercalado com os dois encontros dos quartos de final da WSE Cup contra as Roller Matera, campeãs italianas em título.
A derrota por 2-3 em Itália deixou em aberto a hipótese de reviravolta, concretizada em casa na segunda mão, por números esclarecedores (6-1), graças a um hat trick de Margarida António.
Para a avançada de 28 anos, a qualificação para a final four transformou o sonho em objetivo: «Quando fizemos a remontada na nossa casa com o nosso público, achámos que era possível. Tínhamos eliminado uma das equipas mais fortes em competição.»
Após uma aventura de um ano no Hockey Berenguela em Espanha, Margarida António, seduzida pelas «condições ideais para voltar a casa» ingressou na Escola Livre. Duas temporadas, 77 golos e 53 jogos depois, a avançada de 28 anos vive o melhor momento da carreira, tendo sido convocada para um estágio da Seleção Nacional, juntamente com a colega de equipa Inês Freitas.
Depois do hat trick na segunda mão dos quartos de final, na antecâmara da final four da WSE Cup, Margarida António, deu novo impulso à Escola Livre, desta feita fora de campo: «Quis dar uma motivação extra às minhas colegas e partilhei um vídeo mais íntimo com alguns familiares e amigos.»
Para Inês Cardoso, o gesto da colega foi como um golo inaugural que esvaziou a pressão que podia existir: «Tínhamos o balneário praticamente todo a chorar, mas que foi bastante importante para o jogo que vinha a seguir.»
Embaladas pelas emoções do balneário e por um hat trick de Sofía Reyes dentro do ringue, a Escola Livre bateu a ACD Gulpilhares por 3-2, em jogo disputado em casa, no novíssimo Pavilhão da equipa de Oliveira de Azeméis, que foi alvo de obras de melhoramento nos últimos anos.
A vitória épica nas meias catapultou a turma de Miguel Resende para a final onde iria defrontar o Valdagno. Aos 9’, um golo de antologia de Sofía Reyes desbloqueou o marcador e a vitória preta e branca, cimentada com cinco golos em onze minutos.
Apesar de ter sido a figura da final four, ao marcar um hat trick em cada jogo, a avançada chilena atribui mérito à equipa e ao desejo de «fazer história» na primeira época ao serviço do Escola Livre.
Os três golos da chilena espoletaram gritos de festa e lágrimas de alegria de quem tinha acabado de se imortalizar na história da Escola Livre, com a conquista do primeiro troféu da secção do clube, e, ao mesmo tempo, tinha voltado a colocar Oliveira de Azeméis no epicentro do hóquei europeu.
A 27 de outubro de 2024, a equipa masculina da Oliveirense tinha sido responsável pela conquista da Taça Continental frente ao Sporting, sob o comando técnico de Nuno Resende, irmão de Miguel Resende.
Para o treinador da Escola Livre, orgulho é palavra obrigatória quando fala do irmão: «Foi uma boa coincidência, não foi? É uma figura que eu admiro imenso e sem dúvida que poder ganhar uma competição europeia, no mesmo ano e na mesma cidade, é um sonho realizado.»
Dado o crescimento da Oliveirense no masculino e da Escola Livre no feminino, Miguel Resende não tem dúvidas de que hóquei e Oliveira de Azeméis são cada vez mais sinónimos.
Ligadas de dia e noite pelo amor ao hóquei
Apesar da conquista europeia, as prestações prestigiantes e altamente na Europa não são acompanhadas por condições estruturais de semelhante qualidade, à semelhança de praticamente todo o desporto feminino português. «É uma realidade muito distinta do masculino. Nós temos de trabalhar, temos treinos a acabar às 23h30, e vamos para casa preparar as coisas para o dia seguinte», conta Margarida, que tal como Sofía Reyes, justifica o esforço diário para concretizar esta vida dupla com o amor ao hóquei em patins.
Para combater tais desigualdades estruturais inerentes ao hóquei feminino, Jorge Guerreiro apresenta a chave utilizada pela Escola Livre para atrair jogadoras e aumentar a qualidade e a profundidade do plantel: «A forma que encontrámos para alavancar a equipa ao mais alto nível foi dar-lhes condições de vida: casa, trabalho e condições ao nível desportivo. Dificilmente haverá jogadoras de hóquei em patins profissionais, mas temos que pensar também merecem ter vida fora de pista.»
Entre a patinagem artística, o kickboxing e o hóquei em patins, o sonho da Escola Livre é ancorado a uma equipa feminina que, pela voz de Inês Cardoso, não se contenta com o título europeu: «Fizemos história, agora é pensar no resto do campeonato.»
*Reportagem editada por Francisco Vaz de Miranda