
No país do tão apregoado turismo, como é possível que as duas regiões onde esta atividade é o setor económico mais importante... como é possível que dois destinos nacionais que atraem milhares de turistas internacionais e que são o lar de tantos estrangeiros residentes, estudantes, familiares e amigos... numa pergunta: como é possível que Algarve e Madeira tenham permanecido sem uma ligação aérea direta entre si todos estes anos? No país em que o Estado detém quatro companhias aéreas para combater a nossa condição periférica e para promover o turismo descentralizado facilitando a visita a vários pontos do país, como é que esta imobilidade doméstica se explica? Como é que se deixou esta ligação entre Faro e Funchal simplesmente entregue ao via hub de Lisboa?!
Pois bem, em dois dias da semana de dois meses deste verão, esta situação vai alterar-se! É pouco, sim, mas é um começo.
A partir de 2 de junho e apenas até ao início de setembro, passará a ser possível viajar diretamente entre Faro e Funchal às segundas e quintas-feiras num voo sem escalas de 100 minutos. Isto contrasta com as atuais viagens via hub de Lisboa, que podem demorar cerca de cinco horas à ida e outras cinco à volta, expondo os passageiros a preços mais elevados e ao risco de perda de voos em caso de atraso.
Não deixa de ser relevante que este avanço na mobilidade nacional seja realizado por uma das companhias do Estado — a TAP Express — que, ironicamente, está impedida de crescer devido a um acordo assinado entre a administração da TAP e o SPAC (um dos sindicatos de pilotos).
Outro fator impressionante desta rota é que entidades como Turismo de Portugal, Turismo da Madeira e Turismo do Algarve não oferecem apoios diretos para novas rotas domésticas, evidenciando um desdém categórico pelos turistas nacionais. Se, por hipótese, Ayamonte, na vizinha Espanha, tivesse um aeroporto e se para esse aeroporto se inaugurasse um voo direto para a Madeira, aí sim já haveria todo o tipo de apoios institucionais e uma grande celebração para essa nova rota "internacional". Como é apenas uma ligaçãozinha entre Faro e Funchal, dá-se uma palmada nas costas e deseja-se boa sorte.
Perante isto, não surpreende que, por décadas, a tão promovida ideia do "vá para fora cá dentro" se tenha traduzido, para os madeirenses, em viagens para as Canárias, onde podem desfrutar das praias de areia que não têm na maior ilha. É lá, nas Canárias, que gastam dinheiro em hotéis, alugam carros, frequentam restaurantes, fazem compras e usufruem de experiências que poderiam estar a ter no Algarve. A grande diferença?! Há décadas que existem voos diretos e rápidos entre os dois arquipélagos – sem "via".
Para este verão, os madeirenses poderão trocar os 100 minutos entre Funchal e Las Palmas por 100 minutos até Faro. E o mesmo se diga dos algarvios que, num passado recente, chegaram a ter voos diários para Palma de Maiorca.
Mas, como no conto da Cinderela, este feitiço tem hora marcada para acabar: a partir de 11 de setembro, os cem minutos voltarão a transformar-se em "sem voos". Até que um dia chegue um avião encantado para que o Algarve e a Madeira estejam unidos para sempre!
Docente em Sistemas de Transporte e consultor em aviação, aeroportos e turismo