
O Banco Central Europeu (BCE) deu a conhecer o seu relatório de supervisão para o ano de 2024 e as prioridades até 2026. A presidente do Conselho de Supervisão, Claudia Buch, destaca o caminho que os bancos europeus fizeram desde a criação do mecanismo único de supervisão, há dez anos, e a robustez do sistema bancário alcançada desde então. “Resiliência, especialmente na área da cibersegurança, é tão importante como a resiliência financeira”, sublinha, em comunicado, ao referir-se aos novos desafios que as entidades bancárias enfrentam.
Das alterações climáticas à digitalização, a entidade supervisora tem três pilares definidos até 2026: fortalecer a resiliência a choques geopolíticos e macrofinanceiros, acelerar a correção de erros de governança dos bancos e a gestão de riscos climáticos e, por fim, o progresso na transformação digital e a construção de um panorama operacional robusto. Claudia Buch adiantou também que vai haver lugar a uma revisão e otimização dos processos de supervisão, com o objetivo de os tornar mais céleres e eficientes. Mais ainda, quer uma supervisão mais focada nos riscos dos bancos, assegurando que os problemas detetados são solucionados de forma “rápida e consistente”.
Assim, Buch dá também a sua visão sobre qual deve ser a orientação da supervisão bancária, que, acredita, deve estar focada no risco, com visão de futuro e capaz de reagir a um contexto em constante transformação. A líder do Conselho de Supervisão alerta ainda que o BCE não pode perder o foco na união bancária e do mercado de capitais e que deve investir em mais contacto com a sociedade civil, contribuindo para mais transparência.
De forma mais específica, Buch alerta para a possível deterioração dos ativos e disrupções económicas causadas por “conflitos geopolíticos ou efeitos de sanções financeiras”, apesar da forte capitalização e resiliência dos bancos aos choques. Os bancos, argumenta, devem melhorar o seu reporte de risco e adequar os sistemas de agregação de dados de risco, para que as entidades gestoras possam tomar decisões mais informadas. Por fim, as instituições bancárias devem “responder estrategicamente à digitalização dos serviços financeiros e gerir os riscos associados”. Buch assegura que a entidade supervisora vai acompanhar as estratégias digitais para que os riscos sejam mitigados.
Robustez económica dos bancos
A presidente do BCE, Christine Lagarde, corrobora as considerações de Buch, com especial enfoque na questão da cibersegurança, que, garante, vai ser acompanhada de forma mais “intensa”, especialmente com a introdução do DORA. Contudo, relembra que o avanço tecnológico é essencial para que os bancos se mantenham competitivos, desde que tenham uma “gestão de risco saudável”.
A líder do regulador europeu sublinha a importância da supervisão bancária, assinalando a década de aniversário do mecanismo único e os seus resultados. Lagarde realça que este foi o marco mais importante na integração europeia desde o euro e destaca que as entidades supervisionadas se mantiveram rentáveis, capitalizadas e com liquidez, mesmo após uma crise pandémica e energética.
Neste sentido, aponta para os resultados operacionais dos bancos e os seus indicadores. De acordo com o relatório em questão, os bancos supervisionados diretamente pelo BCE – as chamadas instituições significativas – conseguiram um rácio CET1 agregado de 15,7% no final do terceiro trimestre de 2024, enquanto as instituições mais pequenas chegaram aos 18,4%. Olhando para o rácio LCR, este alcançou 158,5% nos grandes bancos e 216,8% nos mais pequenos. O NSFR agregado fixou-se em 126,9% e 133,7% para as grandes e as pequenas entidades, respetivamente. Por sua vez, o ROE dos bancos era, em setembro, de 10,2% para os bancos maiores, o que compara com 10% no mesmo período do ano anterior. Os bancos mais pequenos conseguiram uma subida de 0,2 pontos percentuais para 8,2%.
Os bancos portugueses mantiveram também a sua robustez no último ano, com lucros a subir 13%, NPL a descer e uma eficiência a estabilizar, de acordo com os dados divulgados pelo Banco de Portugal.