Vivemos tempos em que distinguir factos relevantes de narrativas falseadas ou distorcidas se torna um desafio. Por isso, iniciativas de comunicação que privilegiem a objetividade são fundamentais. O PT5O segue essa linha, permitindo ao leitor refletir sobre as melhores decisões no seu campo profissional e pessoal.

No plano global, enfrentamos grandes desafios geopolíticos e geoeconómicos num contexto de incerteza. O mesmo ocorre a nível nacional. Eis alguns exemplos que ilustram a necessidade de análises objetivas:

A nível internacional, a atual administração dos Estados Unidos parece empenhada em reconfigurar a ordem internacional pós-lI Guerra Mundial e redefinir as relações com os seus aliados tradicionais, promovendo uma política nacionalista e transacional sob a bandeira de “America First”. Frequentemente, baseia-se em argumentos económicos e financeiros inconsistentes e pouco sustentados pelos factos. Um exemplo é a política de tarifas aduaneiras aplicada ao comércio com a União Europeia (UE). A ideia de “tarifas recíprocas” pode parecer razoável num processo de negociação bilateral. No entanto, ao analisarmos os números, constatamos que as tarifas médias nos dois blocos são muito semelhantes: 4,3% nos EUA e 4,5% na UE. Contudo, há desvios significativos por sector. Nos bens alimentares, por exemplo, a diferença é marcante: 15,8% na UE contra 5,2% nos EUA. Nos produtos químicos, incluindo os farmacêuticos, a UE aplica tarifas médias de 4,15%, enquanto os EUA cobram apenas 2,35%. No sector automóvel, a discrepância também é relevante: 10% na UE versus 2,5% nos EUA.

Apesar de estes números evidenciarem motivo para ajustamentos, a narrativa promovida pela administração americana é parcial e ignora aspetos essenciais, como a balança comercial de serviços, que é largamente favorável aos EUA. Se considerarmos a balança corrente (bens, serviços e fluxos financeiros de rendimento do trabalho e do capital), verificamos um equilíbrio global, o que, frequentemente, é omitido.

Também se negligencia a interligação das cadeias de valor globais, como no sector automóvel e farmacêutico, criando uma perceção errada sobre vencedores e vencidos. E ignora-se o impacto inflacionista dessas medidas, prejudicando o poder de compra das famílias e o crescimento económico.

As divergências entre os EUA e a UE poderiam ser resolvidas por meio de diálogo técnico e político baseado em informação sólida. No entanto, prevalecem pressupostos imperfeitos e narrativas distorcidas, dificultando a separação entre “trigo e joio”.

A nível nacional, as narrativas políticas estão frequentemente moldadas pelo objetivo imediato de conquista de poder, mesmo que isso implique desrespeitar a ética democrática e os adversários políticos.

A comunicação política de qualidade exige informação económica e financeira rigorosa, mas também deve abranger os três pilares estratégicos do desenvolvimento: o pilar político-institucional; o pilar económico-financeiro e o pilar social.

Pilar político-institucional: a qualidade do sistema político e das instituições é fundamental. Em Portugal, a luta política tem sido marcada por “bolhas mediáticas” e crises que fragilizam as instituições. Nos últimos três anos, ocorreram três dissoluções do Parlamento em, pelo menos, dois casos, baseadas em especulações. O Parlamento é frequentemente transformado num palco de teatralização política, procurando substituir-se às instituições competentes na investigação de alegadas irregularidades. Isso mina a confiança nas instituições democráticas e favorece discursos populistas.

Pilar económico-financeiro: a pedagogia da necessidade de criação de riqueza é essencial. Muitas vezes, a comunicação política esquece que as empresas são as unidades básicas da economia, responsáveis pela geração de valor e emprego. Frequentemente, a retórica é hostil às empresas, sobretudo as de maior dimensão, que são precisamente as mais produtivas e inovadoras e as que oferecem melhores salários.

Pilar social: um Estado Social avançado só pode ser sustentado com uma criação consistente de riqueza e uma produtividade crescente. No entanto, esta realidade é frequentemente ignorada na comunicação política.

Na comunicação para o público, constitui um erro grave formular teorias antes da demonstração dos factos. Como dizia Sherlock Holmes: “Sem querer, começamos a mudar os factos para que se adaptem às teorias, em vez de formular teorias que se ajustem aos factos.”

É uma sensação que muitos têm e que está a acontecer.

Os meios de comunicação enfrentam o desafio de privilegiar factos na sua totalidade e no seu contexto, em detrimento de narrativas enviesadas. A abundância de informação tornou mais difícil distinguir entre verdade e especulação, mas é essencial superar essa dificuldade para proteger a democracia, as instituições e as pessoas.