O mundo mudou, as pessoas mudaram, as gerações atuais privilegiam estilos de vida diferentes e procuram experiências e vivências distintas.

A tecnologia transformou a sociedade de várias formas abrangendo a economia, a cultura, a política e a vida quotidiana das pessoas. Com a evolução tecnológica, assistimos à criação de novos formatos de comunicação, como redes sociais, aplicativos de mensagens que facilitou a conexão entre as pessoas em todo o mundo. A revolução digital trouxe alterações significativas na forma como as empresas atuam. Ao nível da economia assistimos à transição de modelos tradicionais de negócios para uma globalização da economia e o crescimento de empresas de tecnologia como gigantes globais. A automação e a inteligência artificial revolucionaram a produção industrial e os serviços, influenciando o mercado de trabalho e exigindo novas competências aos trabalhadores. No âmbito cultural, a tecnologia digital trouxe novas formas de comunicação, entretenimento e expressão.

A par de todas estas mudanças e embora seja do desconhecimento da maioria da população, o setor agrícola também sofreu profundas transformações nos últimos anos.  Hoje ser agricultor é muito diferente de outrora, mas a agricultura continua a ser vítima de uma visão urbana completamente desfasada da realidade. A sociedade "olha de lado" para quem trabalha no campo, para quem usa roupa suja, por quem tem que esperar um bocadinho mais no trânsito porque está a circular um trator agrícola, etc.

O agricultor sente-se desvalorizado, vê o seu papel descredibilizado e os manuais escolares são um bom exemplo disso. O agricultor de hoje substitui o burro, o cavalo, a charrua e o arado por tratores munidos de sistemas de drones de pulverização, com GPS, condução autónoma.  A agricultura de hoje faz uma gestão rigorosa da utilização da água recorrendo a sensores de humidade, irrigação por gota a gota mas os manuais escolares continuam a ilustrar o agricultor de hoje como o agricultor de há 50 anos atrás.

Os agricultores são os jardineiros da paisagem deste país, prestam serviços públicos que não são reconhecidos pela própria sociedade. A limpeza das praias fica a cargo dos horticultores permitindo que estas fiquem limpas das algas que tanto incomodam os banhistas. As florestas ficam limpas impedindo a propagação de fogos e o crescimento de répteis.

Os agricultores são apelidados de "poluidores" quando na prática o que fazem é preservar os solos e os ecossistemas e utilizam práticas amigas do ambiente. O chorume, por exemplo, é utilizado para fertilizar os solos evitando a utilização de produtos químicos. Cada vez que mobiliza o solo, o agricultor está a descompactá-lo, permitindo que haja oxigenação e que as plantas tenham mais condições para se desenvolverem.

Verifica-se que existe muito desconhecimento sobre o impacto ambiental da agricultura e são muitas as opiniões emitidas sem um verdadeiro conhecimento. A pandemia é um bom exemplo do impacto ambiental da produção agrícola, pois a população tomou consciência que a pecuária e a produção de alimentos continuou a existir e verificou-se uma significativa redução da poluição ambiental. Terá mesmo a agricultura o impacto negativo no ambiente que insiste em fazer parecer?

Ser agricultor é muito mais que produzir alimentos, ser agricultor é produzir saúde. São os agricultores que contribuem para que todos tenham acesso a alimentos saudáveis, ricos e nutritivos.

Hoje o agricultor tem que ter conhecimentos de biologia, química, física, mecânica, eletricidade, informática, gestão, etc. O agricultor é alguém que sabe como funciona a natureza e que tem consciência que o ecossistema é feito de equilíbrios, garantindo o equilíbrio da natureza moldando-a à sua necessidade de produção de alimentos e faz uso desse conhecimento para, por exemplo, eliminar pragas, libertando no ecossistema predadores naturais para combater as suas pragas, coloniza os solos com bactérias benéficas para as suas culturas, como mobilizadores de fósforo, azoto, potássico, etc.

Uma reflexão mais atenta sobre as diferentes atividades económicas, evidencia que a agricultura é a única atividade que promove a biodiversidade, produz oxigénio e capta o dióxido de carbono (através da realização da fotossíntese na produção de alimentos).

A AGRICULTURA É UM SETOR EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO

Investir em ferramentas que possibilitam a monitorização, controle e otimização das atividades agrícolas como drones, sensores e satélites já é coisa do passado. Agora vivemos a era da agricultura 5.0 cujo foco é o desenvolvimento e consolidação, incidindo em inovação e customização. Em termos práticos, esta era agrícola dá especial atenção ao processamento de dados e automação dos modelos de produção. Sistematizando, a agricultura 5.0 tem o objetivo de customizar o cultivo das plantações, colmatando as necessidades e resolvendo problemas em tempo real, a partir de dados e soluções robóticas, inteligentes e automatizadas.

A tecnologia contribui diretamente para a sustentabilidade porque a aplicação de novas técnicas e ferramentas digitais no campo tem ajudado o agricultor a aumentar a produtividade, reduzir os custos, melhorar a qualidade dos produtos e preservar a natureza.

O trabalho dos agricultores tem que ser reconhecido como um serviço de interesse público. Vivemos temos de mudança, estamos numa fase de transição e o setor agrícola tem que ser valorizado pela sociedade, reconhecido pelo valioso contributo na economia, no ambiente, na fixação de pessoas e terá que ser uma prioridade do governo.

Os agricultores são os heróis invisíveis que alimentam o futuro de Portugal. São os agricultores que alimentam os futuros médicos, os futuros professores, os futuros políticos que conduzirão o futuro do país. Potenciar o setor agrícola é potenciar Portugal.

Vice-presidente da APROLEP